Desejando, sempre, honrar ao Senhor…

A REAL BÊNÇÃO

“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus” (Mt 5:3).

Em seu sentido primitivo, a primeira bem-aventurança jamais pretendeu moralizar ou ameaçar (“afaste-se do dinheiro, da materialidade e de todas as necessidades pessoais ou outras”).

Tampouco a primeira bem-aventurança aspirava ser uma simples promessa de compensação como alguns pastores hoje em dia propõem (“viva como um pobre e alcançarás o céu”). Ao contrário, a bem-aventurança era uma alegre notícia, a grande boa nova de que a era messiânica se instaurara na história, a proclamação de que o dia da salvação há muito esperado finalmente chegara.

A questão crucial para determinar o sentido original dessa bem-aventurança é entender quem são os pobres que Jesus declarou bem-aventurados? Será que devemos entender “pobres” num sentido social, como os que são literalmente destituídos, empobrecidos, indigentes? Ou Jesus usa “pobres” num sentido religioso, para se referir àqueles que dependem inteiramente de Deus para tudo o que possuem e que percebem a própria falta de merecimento e, desse modo, aceitam a salvação como o dom de Deus em Cristo Jesus?

Para compreender o significado real, a passagem não pode ser tomada isoladamente. Antes, deve estar situado dentro do contexto de todo o evangelho. Jesus anuncia que os pobres têm um lugar privilegiado no reino. Vamos comparar o pobre da primeira bem-aventurança com outra classe privilegiada no evangelho.

O evangelho de Mateus nos fala que as crianças têm um direito especial no amor de Deus:

Naquele momento os discípulos chegaram a Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos céus?” Chamando uma criança, colocou-a no meio dele, disse: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus. Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus. Mateus 18:1-4

Não há dúvida de que é necessário aprender a ser como uma criança para entrar no reino. Mas para se captar todo o vigor da expressão “como crianças”, nós precisamos perceber que a atitude judaica para com as crianças no tempo de Cristo era drasticamente diferente daquela que existe hoje. Temos a tendência a idealizar a infância, vê-la como a idade feliz da inocência, despreocupação e fé simples. Na comunidade judaica dos tempos do Novo Testamento, a criança era considerada sem nenhuma importância, não merecendo nenhuma atenção ou favor A criança era considerada com desprezo.

Para o discípulo de Jesus, ser como uma criança significa aceitar a si mesmo como pouco apreciado, sem importância. Esta compreensão de nós mesmos muda não somente o modo como vemos nosso valor, mas também o modo como vemos a graça salvadora de Deus. Se a criança judia recebesse dez centavos de mesada do pai no fim da semana, ela não os consideraria pagamento por varrer a casa, lavar a louça e assar o pão. Era um presente completamente imerecido, um gesto de absoluta generosidade de seu pai.

Jesus deu a esses pequenos desprezados o privilégio de seu reino e os apresentou como modelos para os discípulos. Eles deviam aceitar o dom do reino da mesma maneira que uma criança aceita a mesada. Se as crianças eram privilegiadas, não era porque tinham merecido tal privilégio, mas simplesmente porque Deus se agradava delas. A misericórdia do Senhor fluiu para elas total e completamente em razão da graça imerecida e da preferência divina.

Outro texto importante destaca o privilégio das crianças. O hino de louvor diz:

“Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado” (Lc 10:21).

A bênção de Deus recai sobre as crianças porque são criaturas desprezadas, não por causa de suas boas qualidades. Elas podem estar cientes de sua pouca importância, mas este não é o motivo pelo qual as revelações lhes são dadas. Jesus expressamente atribui a bênção que elas recebem à boa vontade do Pai, à eudokia divina. Os dons não são dados pela mais leve qualidade ou virtude pessoal. Eles são pura generosidade.

A bem-aventurança dos pequeninos, portanto, oferece uma clara compreensão do significado da bem-aventurança dos pobres. Na mentalidade da época do Novo Testamento, pobreza e infância eram consideradas com igual desprezo. No entanto, Jesus diz que Deus prefere os desfavorecidos. Deus se agrada em dar um lugar privilegiado no reino àqueles que o mundo considera os mais desgraçados.

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